Cultura 02/12/2019 09:26

ESCULPINDO MACHADO

Uma reinterpretação do livro Dom Casmurro de Machado de Assis fecha o 20º Festival Arte em Cena no GACEMSS

Depois de uma semana intensa, chega ao fim o 20º Festival Arte em Cena de Teatro, com a apresentação Esculpindo Machado, trazendo o universo de Dom Casmurro para o palco. Lá fora as pessoas aguardam na fila seguras na marquise de vidro recém inaugurada, para prestigiar o espetaculo, sorridentes, ansiosas, e eufóricas para testificar o trabalho realizado pela companhia que também celebra aniversários. 

O arte em Cena compartilha a idéia de realizar um festival, desde que veio para o Gacemss há 20 anos. Convidada pelo então presidente Arthur Carvalho Junior, Stael relembra com nostalgia o inicio de tudo e o reconhecimento pelo trabalho sério iniciado 10 anos antes do convite. “Fico feliz que o GACEMSS tenha visto o trabalho que realizamos . Para nós é uma honra e um prazer estar aqui nessa casa que valoriza a Cultura e inspira a arte. Queremos essa parceria que tem tudo para se fortificar e crescer cada vez mais”, pontua Stael de Oliveira, criadora e diretora do Arte em Cena.

O universo de Machado de Assis era leitura obrigatória para nós, quando ainda alunos do Colégio Getúlio Vargas. Dom Casmurro era o livro chave para compreender essa genialidade e os detalhes dos personagens e, em especial, de Capitu, sempre dissimulada. Quando criança, essa era uma palavra que me intrigava e hoje eu a vejo encenada no GACEMSS, entidade que meu pai abraçou e eu dou continuidade a essa paixão.

Hoje, vejo a história com outros olhos e uma nova interpretação, observando detalhes de uma trama que não entendia quando criança. Detalhes bem retratados na peça. Será possível esculpir Machado de Assis? A provocação da chamada vem em minha mente como uma verdade. Essa releitura do livro, com uma adaptação e linguagem atual impressiona e faz pensar, dando voz a mulher, numa reinterpretação da obra.

Igor Andrade, que fez com Stael o texto e argumento da peça, está em Portugal concluindo estudos e acompanhou em uma videochamada a apresentação da peca. “Eu queria estar aí, mas me senti abraçado e muito feliz. Pude mandar a sonoplastia da peça, escolhendo as trilhas que comporiam o espetáculo. Mesmo longe estive perto. Essa é  parte boa da globalização, estamos conectados”, comentou Igor, D’além mar.

“A gente se orgulha por fazer algo que a gente acredita. O simples sonho de uma menina que teve a aprovação e incentivo dos pais trouxe a vida um sonho construído coletivamente com determinação e muitas dificuldades”, comenta emocionada Stael ainda de mãos dadas com Nei rafael, que a apoiava enquanto se debulhava em lembranças. “Conseguimos fazer do sonho uma realidade e impulsionar tantos outros a fazer o mesmo. Isso é o Arte em Cena. Celebrar nosso aniversário no palco é motivo de orgulho”, conclui sob uma forte salva de palmas.

Para Paschoal Possidente, presidente do GACEMSS, que foi convidado a subir ao palco ao final do espetáculo, o presente desse aniversário é de todos nós. “Fomos brindados um um presente sem igual na noite de hoje. A Casa da Arte, o GACEMSS, se enche de felicidade por ver esse grupo crescer e se profissionalizar cada vez mais. Estamos de portas abertas para todos vocês, venham no GACEMSS, tornem-se sócios, valorizem a arte e a cultura, esse espaço é de cada um de vocês”, conclui aplaudido por todos.

Uma intervenção antes da peça, retratou um tema importante e inquietante,  violência contra a mulher, com uma interpretação forte e tema entrelaçado com a peça escolhida para o encerramento. O silêncio e atenção do público era pleno e os olhares capturados na iluminação à frente da cortina, destacando olhares e expressões de dor, inquietação e luta. A intervenção feita por alunas do Curso de teatro, hoje monitoras do curso, com texto delas próprias, aponta um tema pouco debatido e falado, mostrando a maturidade e o talento do grupo na profundidade da reflexão.

Logo após a cortina se abre, revelando um cenário estonteante, provocativo e ao mesmo tempo lúdico. Hoje cedo acompanhei parte do ensaio geral, quando a montagem ainda estava sendo feita. Não havia percebido a grandiosidade do espetáculo, que me emocionou profundamente.

Precisei retomar essas lembranças pela encontro casual com Tia Mira, nossa professora de teatro, que emocionada desejou sucesso a Stael, de mãos dadas com ele na entrada de serviço, onde aprendemos tantas coisas sobre o teatro. “Dê continuidade a essa arte, Stael”, comentou ainda emocionada a nossa mestra, “Você tem o dom e a forma de levar transformação para a vida de seus alunos, faça isso sempre com o coração”, se despediu enquanto aproveitei para registrar o momento.

Quem imaginaria que essa recomendação seria o tom da noite. Claro que se esperava uma grande festa, mas a interpretação dos alunos foi magistral, o figurino, a sonoplastia, iluminação contagiou nossos olhares e corações. Levar uma estreia para o final do festival é um desafio, ainda mais em tão pouco tempo. A idéia surgiu no final de agosto e foi realizada com maestria. Merece o aplauso de todos.

Esse clima de compromisso do grupo tranaformou-se em lágrimas de alegria, quando ao final do espetáculo todos os alunos presente subiram ao palco. Mais uma irreverente intervenção que nos trouxe um flashback através de camisetas dos festivais anteriores, com o carinho de quem coleciona memórias. As camisetas foram colocadas no palco servindo de degraus para rememorar cada um dos 20 festivais, com a crítica da personalidade de cada professor, com seus jeitos e manias. Apresentação emocionante.

“Isso pode, gente?”, interpela Stael ao público, ainda atordoada pela emoção. “Não existe maneira melhor de encerrar esse festival, com essas doces lembranças, com esses amigos, com esse público. Agradecemos a todos”, finalizou para fazer no palco e costumeira “prece do teatro”, num grande circulo formado pelos alunos que num grito final seguiram para o o abraço no centro da roda. Mais uma vez emocionante! 

Obrigado, Senhor, por me permitir fazer parte disso, trazendo minhas impressões em forma de texto. Desculpem se foi longo, mas a vida pede que sejamos nós mesmos ao narrar e viver nossas histórias.

Jader Costa

Diretor Executivo

Brasil

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